29 Junho 2026

Gasolina e gasóleo: o que sabe sobre dois dos combustíveis mais conhecidos do mundo?

O gasóleo e a gasolina são, sem dúvida, dois dos produtos mais conhecidos da indústria petroquímica, e também dos mais incompreendidos.

Apesar de partilharem a mesma origem (o petróleo bruto) e de serem frequentemente tratados como "a mesma coisa em versões diferentes", a verdade é que se trata de combustíveis com composições químicas, processos de produção e aplicações bastante distintas.

Esta distinção não é apenas uma curiosidade técnica, tendo implicações diretas na eficiência energética, no desempenho dos motores, no impacto ambiental e até nas estratégias de transição energética que o setor enfrenta atualmente.


Em que diferem a gasolina e o gasóleo?

Apesar de ambos serem uma mistura de hidrocarbonetos, esta possui um número diferente de átomos de carbono:
 

  • De 4 a 10 na gasolina;
  • De 10 a 22 no gasóleo. 

Além disso, embora ambos provenham da destilação do petróleo bruto, aquecido a cerca de 400 ºC e recolhidos, sob a forma líquida, na coluna de destilação, o gasóleo (mais pesado) é recolhido na parte mais baixa, e a gasolina (ligeira) é recuperada no cimo da coluna.

As propriedades físicas também diferem:
 
  • Gasolina

Num motor a gasolina, a inflamação dá-se com a mistura do líquido com ar e a faísca provocada por uma vela. Este motor de ignição por faísca (ou centelha), também é designado tecnicamente por motor de ciclo Otto (admissão > compressão > explosão > escape), em homenagem ao seu inventor, Nikolaus Otto, em 1876.

O número de octanas (ou octanagem) mede a capacidade de a gasolina resistir à autoignição prematura e é tanto mais estável quanto maior é este número. Em Portugal, utiliza-se a gasolina “normal”, com 95 octanas, e a “super” com 98.

O termo octanas provém do Octano, um hidrocarboneto saturado (C8H18), que se caracteriza pela sua alta resistência à combustão espontânea, ou autoignição.

Para se conhecer o número de octanas de uma gasolina, é comparada a sua resistência com uma mistura padrão de octano e heptano, tendo o octano um número de referência de 100, e o heptano, extremamente inflamável, um valor de 0.

Assim numa gasolina 95, esta terá um comportamento similar a um combustível composto com 95% de octano e 5% de heptano. Alguns combustíveis, como os usados na aviação ou em automobilismo, podem ter números de octanas superiores a 100.
 
  • Gasóleo 

Por sua vez, o gasóleo não se inflama à temperatura ambiente: se deitarmos um fósforo aceso sobre o líquido, apaga-se. O gasóleo necessita de atingir cerca da 70 ºC, que corresponde ao seu “ponto de fulgor” (ou de inflamação), ou seja, a temperatura mais baixa em que se liberta vapor suficiente para formar uma mistura inflamável com o ar.

No motor, o ar é comprimido, por forma a elevar a pressão e temperatura, e a inflamação dá-se com a injeção do gasóleo. Este motor de ignição por compressão é designado tecnicamente por motor de ciclo diesel, em homenagem a Rudolf Diesel.

Neste caso, o número de cetanas mede a facilidade de ignição do gasóleo/diesel após ser injetado, sendo que um índice mais elevado corresponde a um menor atraso entre a injeção e a explosão, facilitando o arranque a frio e reduzindo o ruído e as emissões.

Em Portugal, o gasóleo simples situa-se geralmente no valor mínimo exigido de 51, conforme a norma europeia, enquanto os premium/aditivados tem o índice elevado para valores entre os 53 e 55.

Curiosamente, o gasóleo europeu é um dos mais refinados do mundo, ao contrário do de países como os Estados Unidos da América, onde o mínimo é frequentemente de apenas 40.


Outras curiosidades sobre estes combustíveis
 
  • Os motores diesel foram pensados para funcionar com óleo vegetal 
O engenheiro Rudolf Diesel apresentou o seu 1.º motor em 1897, então considerado revolucionário e muito mais eficiente do que os motores a vapor, e chegou a demonstrar versões a funcionar com óleo de amendoim na Exposição Universal de 1900.
 
  • O gasóleo pode congelar
Face a temperaturas muito baixas, como por exemplo em regiões frias da Rússia e Canadá, o gasóleo engrossa e forma cristais de parafina. Em países frios é habitual utilizar-se aditivos de “diesel de inverno”.
 
  • Os primeiros postos de combustível eram farmácias 
No início do século XX, a gasolina era vendida em pequenas quantidades em farmácias e lojas generalistas, porque havia muito poucos carros e consumo.
 
  • A gasolina já foi um produto inútil 
No final do século XIX e início do século XX, quando o querosene era o principal combustível, mas usado para iluminação, a gasolina era vista pelas refinarias como um resíduo sem grande valor. Só ganhou importância com o advento do automóvel, nomeadamente com Henry Ford e o seu popular Ford Model T.
 
  • O 1.º automóvel a gasolina é atribuído a Benz 
O 1.º automóvel a gasolina terá sido construído pelo alemão Karl Benz entre 1885 e 1886, designado por Benz Patent. Motorwagen: só tinha três rodas, um motor monocilíndrico, cerca de 0,75 cavalos e uma velocidade máxima que não alcançava os 16 km/h.

Contudo, crê-se que os pioneiros terão sido, simultaneamente, mas de forma independente, os inventores Karl Benz e Gottlieb Daimler.
 
  • A 1.ª viagem de automóvel da história foi secreta 
Em 1888, Bertha Benz pegou no carro criado pelo seu marido, Karl Benz, e fez uma viagem de mais de 100 km, sem avisar ninguém. Durante a extensa viagem, para a altura, teve de comprar combustível numa farmácia (considerada por muitos como o 1.º posto de combustível do mundo), desentupir tubos com um alfinete de chapéu e até usar uma liga para reparar cabos.

Apesar de "secreta”, a viagem funcionou como uma esplêndida operação de marketing, que promoveu o automóvel.